O primeiro dia de vida

É comum pensarmos que nascemos uma tabula em branco e que nossos interesses e preferências sejam moldados pelas relações sociais que só começamos a estabelecer quando atingimos determinada idade. Porém, no ano 2000, um grupo de pesquisadores conseguiu concluir que muito antes do esperado, surpreendentemente ainda no primeiro dia de vida, recém-nascidos já manifestam determinados interesses sociais, variáveis com o gênero.

Este estudo, especificamente, investigou se meninos e meninas com um dia de vida (muito antes de terem sofrido o efeito da socialização) apresentavam diferenças no interesse por um estímulo mecânico (móbile) ou social (face). A forma como eles avaliaram o interesse destas crianças tão pequenas foi através do tempo que elas despendiam olhando para cada um deles, quando lhes eram apresentados.

Os dados permitiram concluir que, em média, recém-nascidos do sexo masculino olhavam muito mais tempo para o móbile, que para a face humana; enquanto que o padrão de resposta feminino foi o oposto. Esse resultado não implica em dizer que a socialização seja um processo irrelevante para a determinação dos interesses sociais, mas demonstra que desde o nascimento já existe uma diferença de gênero que faz os homens tenderem a preferir estímulos mecânicos, e as mulheres a tenderem a preferir estímulos sociais. Com base em outros trabalhos publicados posteriormente, inclusive por Simon Baron-Cohen (um dos autores do aqui citado), uma das possíveis razões para esta diferença está na quantidade de testosterona recebida durante a gestação que, por ser naturalmente maior nos homens, acaba configurando um padrão de funcionamento cerebral mais voltado à sistematização.

Referência: Connellan, J., Baron-Cohen, S., Wheelwright, S., Batki, A., & Ahluwalia, J. (2000). Sex differences in human neonatal social perception. Infant Behavior and Development, 23(1), 113-118.

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Juliana Guntert

Professora, formada em letras e administração e com técnico em comércio exterior. Tem como aspiração de vida poder conversar com o mundo inteiro.