Saudades...Dia das Mães




Saudades que chegam sem avisar e vão penetrando meu ser por todos os poros.
As lembranças de vocês vêm surgindo,
inicialmente como uma névoa que, aos poucos,
vai tomando forma.
Vejo as silhuetas,
sinto os corpos e sei que vocês estão comigo.

Que sensação envolvente,
que pulsar acelerado.
Devagarinho, meu coração se acalma,
se abranda e se entrega a esta lembrança terna,
doce, mas também muito doída...

Querendo vê-las e absorver esta miragem abençoada,
abro os meus olhos e busco estes rostos tão queridos,
tão presentes em meus sonhos.
Mas, neste momento, consciente da realidade,
só consigo sentir o calor das minhas próprias lágrimas.
Aos poucos, meu coração vai sendo tomado pelo sorriso de vocês que me convida a olhá-las.

É só então que consigo distinguir suas faces e nossos olhares se encontram.
Ficamos ali, em silêncio nos admirando, nos aproximando, como querendo nos tocar.
Eu sinto que nos tocamos, sem que palavras sejam ditas.
O meu coração toca vocês.

Mas é necessário que eu fale do meu amor por vocês e
das lembranças preciosas que trago dentro de mim, que
percorrem minhas veias,
fluem com meu sangue, são minha seiva, meu alimento.

Vocês, mulheres tão valiosas em minha vida,
que ainda olham por mim e me ajudam a ser a mãe que sou,
a mãe que busca viver e vibrar junto com as filhas,
construindo lembranças que serão tão ricas para elas como as de vocês são para mim.

Obrigada minha avó, pela delicadeza de suas mãos quando eu tão pequenina,
mãos que me ensinaram a fazer toalhinhas de bandeja,
recortando com a tesoura papéis de seda das mais diferentes cores.
Quanta magia... Com amor, você permitia que eu misturasse as gemas de ovo
que dariam o "toque e a cor especial" ao seu Arroz Doce, cujo aroma ainda sinto no ar,
o que faz a minha boca se encher de água e o meu coração se emocionar.
Ainda a vejo nas lembranças, sentada ao meu lado,
acompanhando-me em minhas aulas de piano.
Jamais tive fã mais ardorosa: suas palmas ecoavam pela sala,
com orgulho da netinha.
Ainda consigo ouvi-las.

Oh! Minha mãe, que orgulho sinto e que prazer desfruto por ter o seu nome.
Ainda lembro claramente do seu olhar, às vezes tristonho, tentando,
como se fosse um ímã;
atrair para longe de mim a tristeza que, mesmo sem nada perguntar,
você percebia presente em mim.
Mesmo impotente, você era a cúmplice da minha dor.
Mesmo sem saber como,
você queria que ela se desfizesse, abandonasse o meu olhar.
Você pedia em suas preces que eu reencontrasse a minha inocência,
que eu recuperasse a pureza tão cruelmente arrancada.
Você fez o máximo que pôde, que podia ser feito.

Sou grata por você ter me dado seu braço quando andávamos pelo centro da cidade,
caladas, mas unidas. Sou grata pelo deslizar de suas mãos por sobre as minhas.
Hoje, eu consigo sentir todas essas coisas, mãe!

Sinto que seu amor era assim como um santo remédio no meu interior,
um remédio que ficou guardado e só agora, liberta de tantas coisas ,
eu consigo sentir e confirmar que ele está aqui, dentro de mim,
significando toda a energia que você queria me dar.

Sinto-me cuidada, muito bem cuidada e amparada por você!
Após quatorze anos da sua partida,
estou abrindo o meu coração e resgatando tantas coisas belas que vivemos juntas.
Acontece que eu havia criado uma crosta de proteção que me impedia de sofrer ou,
melhor ainda, permitiu que eu sobrevivesse. Agora não preciso mais dela, a crosta está rompida,
não sou mais uma borboleta presa em seu casulo, sem poder voar.
A minha seiva se espalhou e eu mesma tive forças para romper o casulo,
com a firmeza e a determinação que se exige de alguém que quer nascer por inteiro.

Sou hoje, minha mãe, uma de suas borboletas que desfruta da liberdade e
que pode ser admirada pelo seu belo colorido.
Mas ainda fraquejo ante a dor e a saudade que eu sinto de você,
que eu sinto daquele tempo em que podia chamá-la "Manhê",
sempre que chegava em sua casa.
Como eu gostaria de ainda poder gritar, em alto e bom som, um "Manhê",
com todo o meu amor.
Como seria bom se, como num passe de mágica, você aqui pudesse estar.
Eu, então, a tocaria de uma maneira toda especial,
a mesma maneira com que a toco através do meu coração.
É apenas um sonho, mas a um filho todos os sonhos são permitidos sonhar,
não é mesmo?
Continuarei sonhando em rever-te um dia,
minha eterna Deusa.

E a você, tia, outra mulher marcante em minha vida,
ofereço o meu amor e a minha gratidão pois, com você,
aprendi muito e resgatei um papel de filha que necessitava ser resgatado.
Você entregou-se a mim como só uma mãe faz a uma filha e, assim,
trocamos muitas coisas o que, tenho a certeza,
nos completou e fez nossas vidas ganharem ainda mais beleza.
Tudo o que desfrutamos juntas foi bom.
Você foi minha fiel companheira das tardes de cinema e dos programas musicais.
Você foi exemplo de mulher idealista e de vanguarda para o seu tempo.
Eu a admirava muito, ainda admiro e lhe sou grata por ter sido, pela vontade de Deus,
a "representante" das avós ausentes para as minhas filhas.

Rogo a Deus que vocês estejam brilhando num plano de extrema paz,
musicalidade e arte,
pois a essência de vocês era repleta destas virtudes.

Todo o meu amor e gratidão a vocês,
e todas as nossas saudades...

Feliz Dia das Mães!



À minha avó,
o meu presente são gabirobas,
uvaias e carambolas.


À minha mãe, o meu presente são um amor-perfeito,
um trevo-de-quatro-folhas e uma camélia cor-de-rosa.


À minha tia, o meu presente são orquídeas;
uma dança holandesa e aquele prelúdio de Chopin preferido.


Quanto a mim mesma,
acho que também mereço um Feliz Dia das Mães,
por estar honrando a mim mesma e
tendo a dignidade de levantar, caminhar,
conhecendo e se apropriando do "viver"...


Sorocaba,7 de maio de 2002
Maria Isis B. M. De Luca

Corujando Dia e Noite